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Qual a relação entre o El Niño e as chuvas intensas no Rio Grande do Sul?

A passagem de um ciclone extratropical devastou diversos municípios gaúchos no último dia 6 de setembro. Infelizmente muitas pessoas morreram com a passagem do fenômeno, que possivelmente é a maior tragédia natural do estado registrada.

Podemos aqui discutir o termo tragédia natural. Em um mundo cada vez mais quente, fenômenos meteorológicos relacionados com tempo severo estão cada vez mais comuns. O aquecimento global, como já sabemos, é causado pela emissão de gases de efeito estufa que aprisionam calor na atmosfera. Portanto, não se trata de uma tragédia somente natural no sentido de algo que está totalmente fora do nosso controle e longe de nossa culpa.

Preciso destacar que nesse post não quero me aprofundar na questão do aquecimento global, embora creio ser importante deixar clara sua relação com fenômenos meteorológicos extremos. O que quero é falar especificamente da relação do El Niño com as chuvas intensas no Rio Grande do Sul.

O El Niño

Recentemente escrevi um post sobre El Niño lá no Portal Deviante e escrevi uma complementação aqui no Meteorópole. No post do Portal Deviante eu escrevi:

Portanto, de um modo geral e considerando a média para anos de El Niño, a expectativa para o segundo semestre é que o volume de chuvas seja maior na Região Sul e que ocorra mais secas na Região Norte, norte da Região Centro-Oeste, e Região Nordeste. Devemos ter cuidado com incêndios florestais, que se alastram mais nas condições de seca. A produção de grãos no Brasil poderá ser afetada, além da produção de hortaliças e outros cultivares.

Sendo assim, já é uma característica que em anos de El Niño a Região Sul do Brasil apresente um volume de chuvas acima da média. Isso acontece porque ocorre um aumento das chuvas no Pacífico Equatorial Central e Oriental, modificando o que chamamos de célula de Walker. Em outras palavras, o ar que subiu lá no Pacífico Equatorial Central e Oriental desce quente e seco sobre a Região Norte e Nordeste, dificultando a formação de nuvens de chuva nessa área. Essa área mais quente, seca e com maior pressão atmosférica em média funciona como um tampão, dificultando o avanço dos sistemas frontais para essas regiões. Os sistemas frontais, portanto, ficam “presos” na Região Sul.

O que é um sistema frontal?

Quando temos um ciclone extratropical, uma frente quente e uma frente fria, temos um sistema frontal. Se você quiser entender mais sobre sistemas frontais, recomendo esse texto do Monolito Nimbus. Aqui para o Brasil, geralmente falamos mais da frente fria e do ciclone extratropical (no nosso caso aqui a parte da frente quente fica voltada para o Oceano Atlântico, tem a ver com o formato do nosso continente, que vai se afunilando em direção ao sul).

Então, quando falamos em ciclone extratropical, não estamos falando de algo que vem sozinho, já que ele faz parte do sistema frontal.

Ciclone extratropical é furacão?

Não! Furacão é o mesmo que ciclone tropical. Tufão é outro sinônimo de furacão. Já escrevi vários posts sobre furacões, hoje vou recomendar esse. Os ciclones tropicais se formam nos trópicos. Por outro lado, os ciclones extratropicais se formam fora dos trópicos; suas origens remontam às zonas polares.

Furacões têm o olho característico (região central circular sem nebulosidade) e um formato mais circular. Já os ciclones extratropicais não tem o mesmo padrão visual organizado quando analisamos imagens de satélite. Geralmente estão associados com uma faixa de nebulosidade e muitas vezes podem as nuvens podem se organizar quase que circularmente, mas sem a presença de um olho. As imagens de satélite a seguir vão ilustrar essas descrições:

Ciclone extratropical na costa do Brasil em 04/09/2023. NESDIS/NOAA
Furacão Lee, que está passando pelo Caribe e pode chegar até o Canadá nos próximos dias, de acordo com as previsões. Observe a área central do fenômeno, o olho. Fonte NOAA/Agência Brasil

Os dois são fenômenos grandes, da ordem de algumas centenas de quilômetros, se formam nos oceanos e tem tempo de vida de vários dias. Podem ser monitorados através de imagens de satélite.

Preciso mencionar que os meteorologistas não usam somente imagens de satélite em suas análises sinóticas pois cartas sinóticas são imprescindíveis. Durante o curso de Bacharelado em Meteorologia, aprendemos a fazer e interpretar cartas sinóticas, há disciplinas só para isso.

Já os tornados (aproveito pra comentar porque muita gente confunde) são fenômenos muito menores, com largura de alguns metros até poucos quilômetros e estão associados às supercélulas de tempestade (falei recentemente sobre isso).

Conclusão

Sendo assim, a atuação do El Niño dificulta o avanço das frentes frias pelo território brasileiro. Elas ficam mais confinadas na Região Sul pois a presença de áreas de pressão maior em superfície na Região Norte e Nordeste funcionam comum uma barreira para o avanço delas.

Também é curioso notar como um fenômeno de grande escala interanual, o El Niño, que ocorre lá no Oceano Pacífico afeta fenômenos meteorológicos de escala sinótica (sistemas frontais) no sul do Brasil.

Deve-se acrescentar que é possível que se este não fosse um ano de El Niño, essas chuvas catastróficas do Rio Grande do Sul poderiam não ter ocorrido. Lembrando que houve outro episódio de chuvas extremas em junho também associadas à um ciclone extratropical. No entanto, isso não significa que apenas o El Niño é o responsável. Além de existirem outros fenômenos de grande escala que se comunicam entre si e o aquecimento global tem um importante papel nos fenômenos meteorológicos extremos.

Fontes:

Além dos textos já mencionados nos links ao longo do texto, temos:

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