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“Queremos respostas, mas não queremos ouvir os cientistas”: quando os cientistas não são ouvidos

No meio de tanta lama, uma declaração absurda oriunda do trumpismo chamou minha atenção e quero falar um pouco sobre isso. Trata-se de uma ligação entre o consumo de paracetamol e o autismo, algo que contraria completamente o que afirmam os médicos e a comunidade científica em geral. Houve inclusive uma declaração oficial do próprio Donald Trump a respeito dessa “descoberta”. Na declaração, ele fala acetaminofeno, outro nome para o paracetamol. Os gringos conhecem apenas como Tylenol, mas a gente sabe que é paracetamol porque podemos comprar medicamentos genéricos com preço melhor.

Em abril, Robert F. Kennedy Jr, atual secretário do Departamento de Saúde dos EUA, prometeu “um esforço massivo de testes e pesquisas” para determinar a causa do autismo em cinco meses. Ocorre que não é assim que a ciência funciona. Em vários lugares dos EUA e de todo o mundo, são feitas diversas pesquisas sobre o autismo. Essas pesquisas envolvem extensa revisão bibliográfica, ensaios clínicos, testes, acompanhamento de pacientes, congressos nacionais e internacionais, equipes multidisciplinares de pesquisa e etc. Até o momento, a comunidade científica entende que as causas do autismo são genéticas e ambientais, mas a coisa é bastante complicada e muito intrincada. Estudos multifatoriais são complicados, já que o ser humano consegue lidar com poucas variáveis de uma vez. Encontrar uma única variável culpada para o autismo, geralmente relacionada à causas ambientais, infelizmente parece ser o caminho de pensamentos pseudocientíficos. Muitos ainda dizem que vacinas podem causar autismo (o que não é verdade). Outros dizem que são problemas gastrointestinais e há algum tempo a Andrea Werner tem denunciado a venda de uma substância semelhante à água sanitária que é utilizada em enemas que prometem curar o autismo. Se entrarmos na religião, ouviremos maluquices relacionadas à demônios ou maldições hereditárias. Nessa busca por uma variável culpada pelo autista, pouco se fala em políticas públicas que poderiam melhorar a qualidade de vida dos autistas e de suas famílias.

Kennedy Jr diz que quer tanto determinar a causa do autismo, mas não propôs nenhum painel internacional ou viabilizou financeiramente um esforço conjunto de cientistas para fazer uma extensa revisão bibliográfica ou algo que realmente pudesse fazer a diferença para a produção científica sobre o assunto. Quero dizer, ele poderia propor algo como um IPCC do autismo, sabe? Um lugar onde cientistas de diversas áreas que estudam o autismo poderiam se encontrar, escrever relatórios e dizer como está o estado da arte das pesquisas nessa área. Mas ao contrário, ele agora encontrou um novo culpado: um analgésico amplamente utilizado nos EUA e em boa parte do mundo. Um remédio usado por grávidas e bebês, amplamente recomendado pelos médicos em caso de dor e febre. Evidentemente é preciso procurar seu médico e perguntar se o remédio serve para você e informar eventuais alergias. Mas até o momento é um medicamento seguro. A única grande ressalva que encontrei é que seu uso indiscriminado e exagerado pode causar problemas hepáticos (por isso, respeite a dose recomendada pelo médico). No entanto, repito: não há até o momento qualquer ligação do uso desse remédio com o autismo.

Nós queremos respostas e soluções. Queremos saber das coisas, acho que a maior parte dos seres humanos quer respostas. No entanto, é necessário saber procurar as respostas. Os EUA, sob a égide do trumpismo, tem perseguido cientistas e divulgado informações falsas e perigosas. Para falar de autismo do ponto de vista médico e terapêutico, são necessários anos de estudos, dedicação e uma base sólida. Eles perseguem os cientistas e querem respostas rápidas. Estão alcançando a autodestruição.

Imagem em destaque: Imagem de LEONARDO COSTA por Pixabay

P.S.: recomendo muito o texto da Marina que escreveu: “Quando o Tylenol e as Mudanças Climáticas se encontram”. Tem paywall mas minha prima (a Ahtnamas, uma querida) me disse que dá pra passar por ele usando alguns artifícios em seu próprio navegador ou serviços como o Marreta e o Sem Paywall.

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