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Ser pressionado é normal, mas você tem que ter como se defender.

Há situações profissionais em que é normal ser pressionado. E há profissões onde ser pressionado é parte da profissão, como um médico que precisa tomar uma decisão rápida difícil durante uma cirurgia ou um policial em uma situação crítica.

Como meteorologista, já passei por situações onde fui pressionada para dar uma resposta rápida, porque estava com um jornalista que iria entrar ao vivo em alguns minutos ou porque eu mesma participaria de alguma entrevista ao vivo.

Quando defendi meu mestrado, há muitos anos, também fui pressionada. A banca me fez várias perguntas, o que é o esperado. Ainda antes da defesa da dissertação, no exame de qualificação, também fui muito pressionada. Eu não tinha força para essa pressão, eu me abalei bastante. Hoje entendo que ser pressionado é algo absolutamente normal. A experiência e o alcance de uma maior maturidade geralmente ensinam algumas coisas.

O problema é que em algumas situações a pressão pode vir acompanhada com grosseria ou ofensas por parte de quem pressiona e evidentemente isso não está certo. Mas na maior parte das situações que eu vivi pessoalmente e que eu presenciei, a pressão era apenas uma pergunta incisiva que exigia uma resposta direta e rápida. E eu vou contar uma história que vivi há uns 13-15 anos e que era sobre isso.

Eu fui participar de uma entrevista de emprego nessa ocasião. Era para trabalhar com TV e rádio e o negócio era ao vivo. E se é ao vivo, é assim: te fazem perguntas e exigem que você responda sem titubear. Lembro-me bem que durante a entrevista, os entrevistados (3 pessoas muito renomadas na área) me fizeram perguntas sem parar, realmente me colocaram na parede. Eu, no alto da minha inocência, não tinha ideia de que a entrevista seria assim. Achei que me perguntariam sobre minha formação, pretensão salarial, etc. Quero dizer, eu não estava nem um pouco preparada para a sabatina. Não passei na entrevista, claro. Uma colega tinha o perfil e foi aprovada. Na época eu fiquei bem triste e fiquei até com um pouco de raiva dos entrevistadores. Isso ficou arquivado na minha mente e fazia algum tempo que eu nem pensava nisso, muita água rolou debaixo da ponte. Até que algo aconteceu recentemente.

Acompanhando a CPI da Covid, pude ver o depoimento da médica Nise Yamaguchi, que defendeu medicamentos contra a doença mesmo depois de pesquisas publicadas em artigos mostrarem que esses medicamentos eram ineficazes. Em uma posição de poder dentro do Ministério da Saúde, ela aconselhou para que esses medicamentos fossem usados mesmo quando a comunidade científica alertava sobre sua infeficácia e uso perigos do uso indiscriminado. Em seu depoimento, ela foi pressionada, titubeou e ficou em uma situação difícil diante dos parlamentares.

Essa médica é uma das responsáveis pelo caos que estamos vivendo nessa pandemia: falta de atitude no início da pandemia (lockdown, etc), demora para adquirir vacinas, uso de medicamento ineficazes (que foram amplamente fabricados), etc. Ela tem que ser pressionada para dar respostas diretas, assim como todos os demais envolvidos. Ela tomou decisões erradas mesmo após seus pares advertirem sobre a ineficácia dos medicamentos: ela DEVE ser pressionada.

Em qualquer banca de mestrado ou doutorado, as pessoas são pressionadas. Até mesmo num TCC o aluno é pressionado, ele precisa defender o que escreveu e mostrar conhecimento dentro daquilo que pesquisou. Ser pressionado é parte da vida. E se seu trabalho não está bom, se sua hipótese foi mal construída, se durante o desenvolvimento teve qualquer problema que o orientador não notou, os membros da banca vão questionar ainda mais.

Hoje lembro daqueles profissionais que me pressionaram para ter respostas rápidas sobre minha área durante a entrevista de emprego. Eles não me trataram mal, foram seres humanos educados e respeitosos como todos devem ser. Só que eles fizeram muitas perguntas que eu tinha que responder rapidamente. É claro que no caso da Dra Nise o senador foi super duro e enfático porque a situação pede. A dureza tem que ser com todos que sentarem ali, independentemente do gênero e isso é o mínimo que a sociedade brasileira espera.

E por favor, não levantem a carta da “Dra Nise, ótima pianista” ou “Dra Nise, ótimo trabalho com pacientes de câncer”. Eu vi pessoas falarem disso no Twitter e mais uma vez vejo o quanto usam argumentos que não tem relação com o assunto. Transpondo novamente para a situação que vivi envolvendo a entrevista de emprego, eu também escrevo bem e adoram quando conto histórias. Mas não eram as habilidades necessárias para a situação. Dra Nise, com seu excelente currículo, se perdeu quando se envolveu com esse governo e com suas falácias.

Imagem que abre o post: barógrafo aneróide, um dos instrumentos que medem a pressão atmosférica. Fonte: UNSPLASH

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