Ter filhos é perceber traumas que você não sabia que carregava

Vou contar a história do jeito que aconteceu. Claro, não vou expor nomes, porque estamos falando de crianças. Também porque a história que vou contar não tem a ver com essas crianças. Ela apenas serve de base para mostrar como um determinado assunto me faz reviver situações bem ruins do passado.
Outro dia meu filho mais velho emprestou um livro para um amigo que esteve doente e precisava de ajuda com a lição dos dias que ele faltou. Quando meu filho chegou em casa, comentei alguma coisa sobre o livro e ele me explicou que havia emprestado para o amigo. Não tinha lição de casa e ele não iria precisar do livro no dia seguinte. Minha reação imediata – que geralmente é a mais rudimentar, aquela do complexo-R – foi ralhar com meu filho e dizer que ele não deveria sair por aí emprestando as coisas dele. Ele me explicou:
– Mamãe, é o Fulano. Ele é meu amigo. Eu só quis ajudar, desculpe mamãe.
Na hora que ele falou essas coisas, meu corpo inteiro gelou. Lembrei de várias coisas da minha infância, de todas as crianças que eu acreditava que eram minhas amigas e me decepcionaram, espalharam fofocas sobre mim, estragaram ou furtaram coisas minhas, pegaram emprestado e se fizeram de desentendidos, etc. (In)felizmente tenho uma memória muito boa. Lembrei de quando minhas vizinhas escrotas me agrediram, de quando outras meninas do meu bairro colocaram um bilhete dentro da minha caixa de correio me ofendendo, de quando duas ‘amigas’ começaram a me ignorar na terceira série (passavam por mim e me ignoravam) e anos depois me adicionaram no Orkut como se sempre fossem minhas melhores amigas. Lembrei de muita coisa que me atravessou, que me machucou na minha infância e que meus pais não souberam ou nem puderam me ajudar.
Minha escola tinha muita gente horrível. Horrível porque era machucada em casa, pela vida, pela escola, pelo sistema, todo mundo numa vida meio fodida ali naquela época naquela periferia. Alguns mais lascados do que outros. Eu também conheci gente legal na infância, nem todo mundo era horrível, mas foram tantos horrores que parecem ter apagado a maior parte dos bons momentos. Creio que passei por algumas situações de negligência da parte de meus pais, mas não guardo ressentimentos, tenho certeza que eles agiram da melhor maneira que tinham condições de agir.
No final da adolescência e já na vida adulta, conheci muita gente legal. Na USP conheci grandes amizades que mantenho até hoje. Por isso, eu achava que eu tinha superado essas situações difíceis envolvendo amizades na infância, mas a verdade é que a infância é o chão que a gente pisa pra sempre (oi Lya Luft) e uma hora a gente decide reformar o piso e descobre as rachaduras e mofo.
Meus filhos estão crescendo, o que implica em maior contato com pessoas de fora do núcleo familiar. Eles vão se ‘entendendo por gente’ e vão se ligando aos amigos e conhecendo novas realidades. Vão se afeiçoando, desenvolvendo a empatia e o carinho. Eles vão passar por decepções com amizades, acredito que isso é inevitável, porque a gente cria expectativa sobre outros ou porque há gente ruim mesmo. Eu não tenho como evitar corações partidos, por mais que a gente aconselhe e fale sobre os perigos que podemos encontrar por aí. Só que eu também não posso impedi-los de se desenvolverem socioemocionalmente e creio que esse impedimento se concretiza quando a gente fica colocando muito medo exagerado nas coisas e acaba antecipando situações que muitas vezes só existem na nossa mente.
Criar filhos é muito difícil e eu não tenho dúvidas que a maior dificuldade que tenho enfrentado são essas questões internas, que eu ainda carrego e nem percebo. Essas coisinhas só se mostram quando há uma espécie de gatilho, situação que faz elas ressurgirem como lixo quando o mar tá de ressaca. Que eu consiga trabalhar com o material que tenho dentro da minha cabeça, que eu ressignifique as coisas, sei lá. Eu acredito que ser mãe me ajuda a ser uma pessoa melhor, de alguma forma pensar nessas coisas me faz entender minha própria vida.
P.S.: obviamente minha postura é sempre a de conversar com meus filhos. Quando o menino mais velho me explicou porque havia emprestado, eu o abracei e disse que ele era um bom amigo e que a mamãe não teve boas experiências na idade dele, e que a vida dele há de ser melhor. Tento manter a transparência. Não tem fórmula certa e etc.
Imagem que abre o texto: Imagem de Graziella Govastki por Pixabay
