Praticando journaling no parque: o que estava rebuçado, não está mais




Em Monte Carmelo, já há alguns meses, foi inaugurado o Parque da Matinha. Sem dúvida é uma grande conquista do trabalhador, onde se pode praticar esportes, ter um contato com a natureza e levar as crianças para brincar no playground. O convívio com a natureza é algo vital para nossa saúde e sobrevivência. Eu me sinto muito conectada com tudo o que vejo, eu sinto que pertenço a algum lugar. Uma sensação bem traduzida por Alexander Von Humboldt e belamente reforçada por sua biógrafa, Andrea Wulf. Humboldt, em sua obra, sempre descreve o quanto o ser humano está conectado à paisagem e como há interdependência entre todas as formas de vida.
Meu marido e meus filhos estavam andando de bicicleta. Como eu ainda não tenho uma, fui ao parque de carro, até para dar um apoio a eles caso fosse necessário. Essa ida de carro rendeu uma situação daquelas que me deixam aflita, mas vou falar dessa situação lá pro final do texto.
Levei algumas coisas para escrever pois queria atualizar algumas coisas em meu diário. Também levei meu kindle porque queria ler mais algumas páginas de As Viagens de Gulliver. O livro original é realmente muito grande e estou lendo devagar. Enquanto escrevo esse post, minha leitura está na terceira parte das viagens, a que ele encontra a ilha voadora e o povo que nela habita. Estou gostando muito da leitura, Jonathan Swift já no século XVIII trazia algumas reflexões sobre o preconceito com aquilo que não se conhece, contra povos e costumes diferentes. Lá pelas tantas, por ser uma tradução mais antiga do livro, li a palavra rebuçar. Lembrei que recentemente aprendi que em Portugal, rebuçado é a mesma coisa que bala (confeito, bala de coco, bala icekiss, freegels, essas coisas). O kindle tem a função de dicionário, o que sempre é muito conveniente e descobri que rebuçar significa esconder, encobrir com um manto, algo assim.
Na minha cabeça de brasileira, fez todo sentido. Um rebuçado é algo que vem embalado em plástico ou papel. Além disso, tem toda aquela coisa dos avós darem balas para os netos sem os pais saberem, um segredinho e cumplicidade entre avós e netos.
Desde criança adoro aprender palavras novas. Lembro de um livro que li quando era muito pequena, eu devia ter uns 6 anos, e nele havia palavras como ralhar e afeitar. Eu nunca tinha ouvido essas palavras e lembro-me que aprendê-las trouxe certo entusiasmo. Por um breve tempo de minha vida, eu acreditava que eu precisava escrever com palavras difíceis ou pouco utilizadas para escrever bem. Felizmente, muitas das professoras de português que passaram pelo meu caminho rapidamente tiraram essa ideia da minha cabeça.
Essa semana, um vestibulando que tentava uma vaga na USP tirou zero em sua redação, que era repleta de vocabulário rebuscado. Ele tentava uma vaga no curso de direito e sua mãe, advogada, entrou com uma ação contra o reitor da USP. Desinformada, não sabia que a FUVEST (fundação que cuida do vestibular da USP) nada tem a ver com a reitoria, pois não é como uma faculdade ou instituto da universidade. Professores de redação que foram consultados pelo G1 e apresentaram ao menos quatro motivos que explicam o motivo do zero. Talvez o principal deles, também de acordo com minha prima que é professora de redação e já corrigiu redações de alguns concursos, é que o cu não tinha nada a ver com as calças. Bom, na ânsia de escrever um texto todo cheio de palavras difíceis, ele fugiu do tema proposto, que era uma dissertação sobre perdão.
Segundo o rapaz, falar difícil nunca o atrapalhou em sua vida. Ele tem apenas 18 anos e obviamente não viveu muita coisa ainda, além de provavelmente ainda ser blindado de situações que exigem uma comunicação eficiente (mandar um e-mail, falar com o padeiro, falar com seu chefe ou com um funcionário, explicar para um pedreiro/arquiteto como será a reforma da casa, descrever os sintomas de um mal estar corporal, etc). Atualmente, professores de português e jornalistas falam muito da importância de se comunicar de maneira simples, para que não haja ruído no canal de comunicação e o processo ocorra com sucesso. Ou seja, o que falo tem que chegar nos ouvidos de quem ouve e essa pessoa precisa de fato entender a mensagem. Ao escrever um banner, um folheto ou uma instrução para os condôminos de seu prédio, você precisa ser clara. Há alguns anos fiz um minicurso do Comunica Simples e aprendi muito sobre a importância dessa discussão.
Eu tenho minhas dúvidas se o rapaz e sua família compreenderam o motivo do zero. Eu acredito que eles ainda estão presos à essa ideia de que escrever bem significa usar um vocabulário incomum e até antiquado e não duvido de aparecerem por aí com aquele discurso de que o ensino piorou, não sei o quê essa ideologia woke, a universidade pública fede, etc.
Voltando ao parque, são sobre essas coisas que minha mente se ocupava enquanto eu lia e escrevia no parque. Depois eu fui fazer uma caminhada pela trilha, vi uma nascente, vi teias de aranha, vi os raios solares penetrando pela vegetação, vi gente feliz, ouvi pássaros e todas as coisas gostosas que a gente vê e sente ao caminhar por uma área verde. Sério, eu volto desses passeios renovada. Acho que preciso disso toda semana e olha que eu moro em uma cidade com poucos prédios, que possui praças e eu mesma tenho um espaço verde em meu quintal. Não adianta, a mata nativa é diferente. Para mim, há algo até espiritual. Infelizmente minhas fotos não foram muitas e não ficaram boas porque eu fui fazer uma gracinha na capa do meu celular e não havia percebido que ocultei um pedacinho de uma das câmeras.
Quando eu estava indo embora, percebi que seria impossível tirar meu carro da vaga. Tinha carro atrás, o carro do lado estava meio estacionado meio que inclinado e havia outros obstáculos no estacionamento. Eu comecei a ficar aflita, enquanto manobrava com muita preocupação e em passos de formiga. A moça que estava no carro de trás, esperando que eu terminasse a manobra para também sair do parque, desceu do carro e me ajudou com tanta paciência e tanta clareza que eu só posso ficar grata. Ela precisava que eu saísse para que ela também saísse e em nenhum momento ela foi grosseira ou impaciente. Ela me ajudou, porque dessa forma ela alcançaria seu objetivo também. Parece algo óbvio a se fazer, não é? Mas eu sou de São Paulo e numa situação dessas por lá eu realmente esperaria um comentário grosseiro, impaciente, estúpido mesmo. A moça (que eu não conheço, mas deixo meu agradecimento) foi tão educada e tão gente boa que mais uma vez me fez perceber o quanto morar nessa cidade está me proporcionando um aprendizado em inteligência emocional, autorrespeito e respeito ao próximo. Vai ver eu até tinha essas qualidades, mas elas estavam completamente rebuçadas.
