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Aniversário de 74 anos do “Dia D” – a importância da Meteorologia nessa operação militar

Os Desembarques da Normandia, conhecido como Dia D (embora esse seja um termo militar mais geral, para designar o início de qualquer operação de combate), foi definida pelo Primeiro-Ministro Britânico Winston Churchill como “a mais difícil e complicada operação de todos os tempos” {x}.

Figura 1: Localização da Normandia, Wikimedia Commons

Os Desembarques na Normandia foram operações que ocorreram em uma famosa quinta-feira, no dia 6 de junho de 1944, como um dos combates da Segunda Guerra Mundial,  quando os aliados invadiram a Normandia dentro do que foi chamado de Operação Overlord. O codinome da operação foi Operação Netuno e é considerada como a maior invasão da história feita através do mar.

Hoje, os Desembarques na Normandia fazem aniversário de 74 anos! Um importante marco da história militar, porém também um importante marco da história da Previsão do Tempo.

O planejamento dessa operação começou em 1943. Nos meses que antecederam a invasão, os Aliados enganaram os alemães através da  Operação Bodyguard, para que os alemães tivessem uma ideia errada quanto a data e o local dos principais desembarques dos aliados. As condições meteorológicas tiveram um papel essencial no planejameno do fatídico Dia D, pois ela precisou ser adiada em 24h uma vez que as condições meteorológicas não eram favoráveis. E é dessa estreita relação da Operação Overlord com a Meteorologia que eu vou tratar nesse post.

Apesar de todo planejamento meticuloso por parte dos comandantes das forças armadas, evidentemente eles não poderiam controlar as condições meteorológicas do dia. Sendo assim, eles buscaram a consultoria da equipe de meteorologistas liderada pelo Capitão J. M. Stagg, do Met Office (órgão máximo de Meteorologia do Reino Unido). As condições meteorológicas no comecinho de junho de 1944 era extremamente desfavoráveis e os meteorologistas dos dois lados do conflito (os dos Aliados e os do Eixo) precisavam de toda a informação meteorológica que pudessem. Para vocês terem uma ideia da importância da Meteorologia durante uma guerra, os dois lados tinham estações meteorológicas em diversas regiões do mundo, para que pudessem fornecer toda a informação possível. Eu falei por exemplo sobre essa estação meteorológica dos nazistas, localizada quase que no Pólo Norte.

Na elaboração de uma previsão do tempo, observações meteorológicas são de extrema importância. Naquele tempo, a previsão do tempo era feita manualmente traçando isóbaras, isotermas e outras linhas de mesmo valor em mapas. Para que esses traçados fossem feitos, era necessário plotar os dados meteorológicos obtidos em diversos pontos e claro, quanto mais estações meteorológicas, mais pontos e melhor os traçados da carta sinótica. Era assim que eles conseguiam avaliar, ao longo das horas, o deslocamento dos sistemas meteorológicos. Em outras palavras, era dessa maneira manual que as cartas sinóticas eram traçadas na década de 1940 e claro, isso mudou com o advento dos computadores.

O Capitão J. M. Stagg e sua equipe confiaram nas cartas sinóticas que traçaram e na interpretação das informações. Dessa maneira, sugeriram aos comandantes que a invasão da Normandia fosse adiada. No começo de junho foi observado um tempo extremamente severo no Canal da Mancha, devido a ação de um sistema frontal associado a três ciclones em deslocamento no Atlântico Norte. Havia muita chuva associada a esse sistema frontal, o que certamente prejudicou a visibilidade e deixou o mar agitado na região, o que muito provavelmente faria com que qualquer operação militar tivesse enormes chances de fracasso.  A equipe de Stagg, no entanto, observou que para o dia 4 de junho de 1944, o ciclone que estava mais a leste começava a ser alcançado pelo segundo ciclone, o que faria com que o sistema frontal se “inclinasse” mais e deixasse de agir exatamente sobre o Canal da Mancha, o que proporcionou uma “janela de bom tempo” de cerca de 36h e claro, isso favoreceu o desembarque.

No site do Met Office estão disponibilizadas as cartas sinóticas desses primeiros dias de junho de 1944. Eu vou destacar aqui as cartas sinóticas das 07:00 UTC de 4 de Junho de 1944 (Figura 2) e a de 01:00 UTC de 5 de Junho 1944 (Figura 3).  Nelas, podemos ver o ciclone indicado como LF encontrando o ciclone indicado por L, conforme discutimos no parágrafo anterior.

Figura 2: Carta Sinótica original do Met Office das 07:00 UTC de 4 de Junho de 1944
Figura 3: Carta Sinótica original do Met Office de 01:00 UTC de 5 de Junho 1944

O Met Office também disponibiliza as cartas sinóticas dos alemães para os mesmos períodos e aparentemente os alemães não conseguiram ver essa “janela de bom tempo” em suas previsões (o que explico no box abaixo). Sendo assim, os alemães ficaram tranquilos, acreditando que o Desembarque da Normandia não aconteceria no início de junho de 1944.

Gráficos no Arquivo Meteorológico Nacional de Met Office em Exeter revelam que os aliados haviam decifrado o código alemão Enigma, permitindo assim que os previsores do Dia D tivessem acesso não só a observações de observadores aliados e voos de reconhecimento, mas também a todas as observações meteorológicas alemãs. A comparação dos mapas sinóticos mantidos nos arquivos do Met Office e nos arquivos do Deutscher Wetterdienst mostra claramente que os meteorologistas aliados colocam uma vantagem significativa sobre os previsores alemães em termos de serem capazes de detectar uma “janela de bom tempo” adequada para a invasão. As cartas sinóticas dos Aliados contêm uma riqueza de observações de todo o Reino Unido e da Europa e também algumas observações do Atlântico Norte. Em contraste, as cartas sinóticas dos alemães revelam que eles não conseguiram decifrar os códigos dos Aliados e, como resultado, praticamente não há observações para o Reino Unido e as águas vizinhas. Tendo acesso a esses dados adicionais, os meteorologistas aliados forneceram informações suficientes para traçar a localização e o movimento da baixa pressão e da frente fria, o que forçou a mudança de planos para a invasão e foi um importante adicional estratégico. Como resultado, o Capitão  J. M. Stagg foi capaz de avisar que as condições de 6 de junho seriam marginais, mas suficientes para iniciar a invasão, e ao fazê-lo, os meteorologistas do Dia D fizeram talvez a previsão mais importante da história {x}.

Além da vantagem estratégica por terem adquirido informações de estações meteorológicas dos alemães, talvez o Met Office tenha contado com um pouco de sorte sim. Claro que a Meteorologia é uma Ciência, quero dizer, não trata-se de adivinhação. E é evidente que a equipe do Capitão  J. M. Stagg  era bastante competente e tinha vantagem por possuir mais informações meteorológicas. Só que eu fico aqui pensando em quantas vezes a previsão do tempo se engana, mesmo hoje com tantos recursos observacionais e com os modelos computacionais. A atmosfera é caótica: qualquer pequena alteração pode causar mudanças no prognóstico. Além disso, as condições para o dia 6 eram “marginais” ou seja, havia aquela dúvida se o tempo estaria realmente bom. Sendo assim, a competência e a sorte foram a chave para o sucesso dessa operação e a Meteorologia teve um papel essencial.

Não deixem de ler o texto do Monolito Nimbus sobre o tema, que possui mais informações sobre o Dia D e a Operação Overlord. Ele inclusive indica um link onde é possível fazer um tour pela Normandia. Confiram!

Bibliografia:

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2 Comentários

  1. Pois é, fiquei impressionada com a vantagem estratégica dos aliados, ao conseguirem roubar dados dos alemães, puderam melhorar a qualidade de sua previsão.
    É uma história que encanta e hoje completa 74 anos!

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