E a tal água de chuva que estava preta?
O tal céu escuro em São Paulo no dia 19/08/2019 deu o que falar! Eu imagino que vários meteorologistas transformar esse dia em estudo de caso. Já imagino TCC’s sendo pensados a respeito desse fatídico dia. Eu falei sobre o ocorrido nesse post, onde esboço minha hipótese de que não foi a fumaça que deixou o dia escuro diretamente, mas isso pode ter acontecido de maneira indireta, já que as partículas de fumaça poderiam ter atuado como núcleo de condensação para a formação de gotas de nuvem, podendo assim ter deixado as nuvens mais espessas. Eu também escrevi um post sobre névoa seca e névoa úmida, explicando que névoa seca (causada por poluição e por fumaça) deixa o céu numa tonalidade ocre, amarronzada e não preta. O efeito da névoa seca é bem perceptível no por do Sol, quando este fica mais avermelhado que de costume (Espalhamento Mie).
Bom, eu vou dar continuidade no assunto e falar da suposta chuva preta que teria acompanhado o dia 19/08 e 20/08 na Região Metropolitana de São Paulo. Ela foi notícia aqui e eu fiquei bem desconfiada disso logo no início e eu vou explicar os meus motivos.
Estamos na estação seca e entre os meses de julho e agosto é muito comum ficar vários dias sem chover em São Paulo. Até chove, mas é aquela garoa bem sem-vergonha. Pode até ser que em alguma situação incomum caia um temporal, mas isso é bastante raro. Consultando o Boletim Climatológico Anual mais recente da Estação Meteorológica do IAG-USP (veja aqui), podemos perceber que a região tem uma estação chuvosa e uma estação seca bem demarcadas, fato que caracteriza o clima da região. Ficar 20 dias sem chover nesse período é algo muito comum. Dessa maneira, calhas ficam bem sujas e na primeira chuva que cai, a água que escorre por elas pode ficar bem sujinha.
E não apenas nas calhas. Os pluviômetros também ficam bem sujos. Para vocês entenderem, os pluviômetros ficam tanto tempo secos que é comum que insetos acabem instalando residência por lá e acabam sendo despejados na primeira chuva intensa de setembro. O Edvaldo Mendes, um amigo que conheci em todos esses anos trabalhando na Estação Meteorológica do IAG-USP me mandou uma foto da chuva do dia 20/08:

Vejam que a água estava bem suja, mas olhando assim eu não posso simplesmente dizer que essa sujeira foi toda causada pela fumaça dos incêndios florestais na Região Amazônica. Pode ser sujeira do próprio pluviômetro. Pode também ser uma sujeira associada a uma poluição local: uma indústria que emita fumaça nas proximidades ou queimadas em áreas bem próximas ao ponto de coleta. A chuva cai das nuvens e “lava” a atmosfera, removendo partículas de poluição logo abaixo dela. E pensando em uma cidade tão grande como São Paulo, isso já é escandaloso. Temos um sério problema de poluição do ar que ao meu ver é pouco debatido pela sociedade. Na cidade, um tipo de poluente chamado material particulado fino (aquele que consegue entrar no pulmão) já apresentou concentração muito acima do tolerado pela Organização Mundial da Saúde em algumas ocasiões (leia aqui). A poluição do ar está associada à problemas respiratórios, pode estar relacionada com nascimentos prematuros, acidente vascular cerebral, etc. Faz algum tempo que eu não escrevo sobre poluição do ar e em 2012 eu escrevi um post geral sobre o assunto.
Num primeiro momento pensei que a chuva suja pudesse ser resultado do combo poluição do ar local e calhas sujas. E sinceramente, ainda penso que esses possam ser os maiores contribuintes. Vejam bem, não estou excluindo a possibilidade da contribuição de fumaça de queimadas em áreas distantes na coloração da chuva. A chuva ter ficado preta do jeito que foi noticiado (veja imagens aqui) apenas devido fumaça vindo de tão longe é algo difícil de concluir imediatamente, ao meu ver. E se vocês lerem as reportagens (veja aqui e aqui, por exemplo), vão ver que a água escura bem preta mesmo foi registrada em áreas do ABC paulista e São Mateus (a Estação Meteorológica do IAG-USP fica bem perto de Diadema, no ABC). Essas áreas são todas bem próximas entre si, ficam na área sudeste da cidade de São Paulo. Em Santo André, por exemplo, há uma famosa petroquímica (Polo Petroquímico de Capuava) e há também outras indústrias na região. Sendo assim, acho muito provável que a sujeira coletada tenha muita relação com indústrias locais, pessoas que queimam vegetação em áreas da região, sujeiras em calhas, etc.
A água foi analisada por especialistas muito competentes (conforme indicado aqui) e encontraram reteno, um hidrocarboneto associado com queimadas. Também foi identificada bastante fuligem na água da chuva. Pois bem, esse reteno e essa fuligem podem ter sido transportados lá da região das queimadas até a Região Metropolitana de São Paulo. Mais investigações e análises nessa água da chuva terão que ser feitas para realmente constatar qual a contribuição remota e qual a contribuição local no aspecto da água dessa chuva. Talvez seja difícil para alguns jornalistas compreenderem que uma análise científica leva um certo tempo e precisa ser feita em situação de controle e calma, repetindo as análises e verificando com a literatura científica. Muitas discussões devem ser feitas e os resultados são colocados sempre em cheque e devem ser questionados pelos pares (cientistas da mesma área). A análise da água dessa chuva foi feita em menos de 48h, provavelmente por pressão da imprensa e da sociedade, mas uma análise detalhada leva certo tempo para ficar pronta.
Vamos aguardar os artigos científicos que serão publicados usando esses dados, o que certamente será de grande contribuição para a comunidade científica. Eu prefiro ter uma certa cautela e deixar claro meu posicionamento crítico, sem nenhum viés ideológico, que fique claro. Os focos de queimada na Região Amazônica estão realmente acima da média dos últimos 21 anos (veja aqui) e é evidente que esse material resultante da queimada não fica confinado apenas na Região Amazônica (falei sobre isso aqui). Além disso, é claro que a Região Amazônica representa um importante bioma e a perda de diversidade resultante do desmatamento e das queimadas é algo de extrema preocupação por parte da comunidade científica. O que quero dizer é que é preciso ter cautela com relação às conclusões sobre o efeito da fumaça dessas queimadas no aspecto do céu e na chuva do dia 19/08 em São Paulo-SP, para que o método científico sempre seja respeitado e para que realmente construamos conhecimento.

Aqui em Rio Grande da Serra quase não tem poluição. Nós temos até líquen vermelho nas árvores, o que indica uma poluição bem baixa mesmo. Ainda assim aqui a água ficou bem escura e turva.
Com toda a polêmica criada pesquisei no INPE, acho que é o lugar certo, e não estamos acima da média.
Eis o link:
http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal-static/estatisticas_paises/
Estou neste planeta a mais tempo que vocês e acho que nos meados dos anos de 1970 a poluição estava pior.
Uma boa introdução é um livro da coleção Prisma, acho que você conhece – descobri que não o único a ter lido a coleção -, que fala sobre Ecologia e Poluição.
Nemo
o Chaaaaaato
PS: não tenho nenhuma ligação partidária.