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Altocumulus stratiformis undulatus: a nuvem como parte da paisagem

Hoje avistei lindas nuvens Altocumulus stratiformis undulatus. Elas não são novidade aqui no blog, já falei desse tipo de nuvem em outros posts (veja aqui). Porém quando falei sobre elas, usei imagens da WMO e agora eu tenho a felicidade de ter minhas próprias imagens registradas por mim em 13/06/2022 enquanto caminhava pela cidade com joie de vivre ou ao menos tentando chegar nesse estágio. Uma pessoa muito sábia uma vez me disse que a gente tem que caminhar observando a beleza das flores, mesmo que aparentemente haja desesperança por todos os cantos.

While the sun hangs in the sky and the desert has sand
While the waves crash in the sea and meet the land
While there’s a wind and the stars and the rainbow
‘Til the mountains crumble into the plain

Oh, yes, we’ll keep on tryin’
Tread that fine line
Oh, we’ll keep on tryin’, yeah
Just passing our time

Innuendo – Queen

Voltando ao Altocumulus stratiformis undulatus

Não se trata de um tipo de nuvem rara! Na verdade, elas costumam aparecer em boa parte do Centro-Sul do Brasil quando há uma frente fria se aproximando e se destacam no céu por apresentarem esse aspecto que lembram ossos de costelas enfileirados. Claro, essas nuvens não estão somente associadas com aproximação de frentes frias. Em algumas regiões litorâneas essa formação de Altocumulus pode aparecer em decorrência da circulação de brisa. Além disso, elas podem aparecer no céu associadas com outras nuvens (nuvens mais altas ou mais baixas), revelando outros quadros de mudança no tempo.

Para saber mais sobre nuvens Altocumulus de um modo geral (com suas 5 espécies possíveis), clique nesse post.

Observar as nuvens e compreender com qual tipo de mudança futura no tempo elas estão associadas é algo que requer prática e muita sensibilidade e vivência no lugar. Um agricultor com certeza sabe que o tempo vai mudar e usa o tipo de nuvem que aparece na paisagem como um dos indicativos (o comportamento de animais é outro, por exemplo). Esse agricultor pode não conhecer os nomes das nuvens, porém compreende as mudanças do tempo em seu lugar de vivência melhor do que qualquer meteorologista que se fia somente por dados observados ou de modelos meteorológicos e nunca esteve naquele lugar. Esse conhecimento tradicional deve se aliar com o conhecimento técnico do meteorologista: os dois saberes se complementam.

Eu estava acompanhando uma publicação no twitter da Carla Soares e ela comentou que ainda não sabia ler a atmosfera da cidade para onde se mudou recentemente. Essa sensibilidade requer prática, observação, humildade para ouvir e muita conexão com o presente. Eu tenho certeza que a Carla logo conseguirá isso!

Quando digo no título que as nuvens fazem parte da paisagem é porque muitas vezes não nos damos conta de como elas modificam a iluminação e até mesmo as sensações de cada um. Vários artistas se dedicaram e ainda se dedicam em retratá-las. Um céu cinza (um dia nublado) pode transmitir para muitos uma sensação de tristeza, angústia ou somente introspecção. Um dia ensolarado de verão com uma vegetação resplandecente pode transmitir por outro lado uma sensação de contentamento e contemplação. A paisagem, como definiu Milton Santos, é tudo aquilo que a gente percebe.

A dimensão temporal da paisagem deve ser pontuada. E aqui não vou entrar nos detalhes da paisagem modificada pelo ser humano (as transformações nas construções de uma cidade, por exemplo). Quero falar especificamente dos elementos naturais em uma paisagem. Nuvens são os elementos naturais mais efêmeros, ou seja, mudam rapidamente de modo que uma paisagem pode se transformar em minutos com a chegada da chuva. É um contraponto interessante aos elementos geológicos, como um rochedo nu, que pode ficar impassível por milhões de anos. E no meio disso, estão os cursos dos rios ou a linha da praia (que podem mudar em alguns anos ou décadas) e a vegetação (que muda sazonalmente).

Eu passei depois de meia hora pelo mesmo lugar e as nuvens Altocumulus stratiformis undulatus já não estavam mais lá. Elas se desmancharam e tornaram-se um lençol de nuvens Altostratus. O céu ficou um pouco mais encoberto e a paisagem modificou-se completamente. Além disso, era o período da tarde e o Sol já tinha baixado um pouco mais em minha segunda observação. Portanto, além da luminosidade reduzida pela modificação da configuração das nuvens, ainda havia o inexorável ciclo diurno, com o sol ficando cada vez mais baixo até ir embora por aquele dia. A paisagem muda rapidamente o que frequentemente me faz pensar sobre nossa própria existência: minha maneira de pensar também muda o tempo todo.

Nesse ângulo as costelas já aparecem mais “desmanchadas”, dando lugar a um lençol de Altostratus

Na imagem acima, onde há esse tapume, havia uma construção simpática (porém em condição ruim de conservação) da primeira metade do século XX. Uma pena que foi demolida, como tantas outras dessa cidade. A pressão imobiliária, a ausência de uma lei que impeça essas demolições e que estimule o proprietário a preservar o imóvel original são os fatores que favorecem essas demolições. Afinal, muitas vezes compensa demolir e construir tudo do zero, porque há a necessidade de ter um prédio com instalações mais modernas e mais seguras. Só que como eu adoro a estética vintage e gosto de preservar a história dos lugares, sempre fico tristinha quando vejo prédios antigos sendo demolidos.

A foto acima é a minha favorita. Vemos que boa parte do Altocumulus stratiformis undulatus já se dissipou e formou um lençol leitoso de Altostratus. Há ainda, do lado direito, algumas nuvens Altocumulus soltas, sem estarem em formação de “costela”. A vegetação deixou essa imagem com um toque muito bonito, embora seja estação seca aqui no Cerrado e a vegetação não esteja em seu viço pleno.

Esse passeio rendeu muitas reflexões interessantes e esse post que modéstia a parte, ficou muito bom. Espero que vocês também tenham gostado e até a próxima!

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2 Comentários

  1. Eu amo tirar fotos de nuvens. Minha esposa certa vez me disse que eu só tinha no meu portfolio fotos de nuvens. Amo tirar fotos principalmente em dias de chuva, quando as nuvens carregadas estão chegando. Neste momento elas apresentar formatos lindos, apesar de serem muito escuras. Consigo ver a beleza delas mesmo nestes momentos. Minha esposa não entende isso, mas as nuvens são algo esquecido por nós nessa rotina louca do cotidiano. Precisamos parar de vez em quando e olhar para cima e admirar as nuvens. Elas são fantásticas.

    Gosto muito de olhar as formações das nuvens em dias quentes, da janela do meu apartamento no quarto andar. Parecem vulcões em ebulição. Isso é maravilhoso.

  2. Alexandre, obrigada pelo comentário. Você colocou uma visão muito artística e poética das nuvens, inclusive a Organização Meteorológica Mundial também já ressaltou essa importância em uma comemoração do Dia Meteorológico Mundial em que o tema eram nuvens. As nuvens são definitivamente a união entre arte e ciência.
    Se quiser enviar suas fotos de nuvens para que eu poste no blog, claro que com seus créditos, fique a vontade.
    Obrigada pela visita.

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