Giro meteorológico pelo Brasil – período de 01 a 07 de agosto de 2018

Estou fazendo um teste com uma nova seção do blog que vai se chamar Giro Meteorológico pelo Brasil. E o que vai ser isso? Bom, vou selecionar as notícias meteorológicas que foram destaque em um determinado período selecionado. Nessa primeira edição, vou postar as notícias dos últimos 7 dias, mas essa periodicidade pode mudar. Lembre-se, o Meteorópole é um blog feito por apenas uma pessoa e portanto temos limitações.
Eu me inspirei no Spin de Notícias do SciCast e eu acredito que uma ideia é boa quando inspira outras pessoas! Meu objetivo aqui é postar os links para as notícias e fazer breves comentários quando eu julgar necessário ou quando eu tiver algo a acrescentar. Vamos lá!
Calorão no Tocantis
Acompanho muito as notícias de Tocantins pelo Edu (@edusr97), futuro Engenheiro Ambiental apaixonado por Meteorologia. Nos primeiros dias do mês de agosto de 2018, os tocantinenses tem enfrentado muito calor. No dia 01/08 a temperatura máxima chegou a 39,2°C em Palmas:
A tarde de hoje (01/08) foi a mais quente e seca do ano na cidade de Palmas
?Máxima chegou aos 39,2°C na estação convencional do INMET na cidade.
?Umidade do ar caiu a apenas 14% durante a tarde
Agosto começou com tudo!
Dados INMET
Estação convencional e automática— Edu (@edsr97) August 2, 2018
Nos dias seguintes, a máxima foi sempre ficando acima dos 38°C. Até que no dia 06/08 a máxima ultrapassou os 40°C: chegou a 40,6°C e já é a tarde mais quente do ano de 2018 na cidade. Esse calor intenso na verdade está ocorrendo desde o final do mês passado, com tocantinenses lotando praias de água doce para se refrescar.
Palmas-TO possui um clima tropical com estação seca (a sigla é Aw pela classifcação de Köppen-Geiger) e é quente quase o ano todo, uma vez que possui baixa amplitude térmica anual. Um lugar possuir baixa amplitude térmica anual significa que as temperaturas médias nos meses de verão são muito semelhantes às temperaturas médias dos meses de inverno e essa característica é muito comum em localidades relativamente próximas da Linha do Equador, uma vez que a radiação solar incidente varia pouco ao longo do ano (sempre é alta o ano todo).
O Estado do Tocantins também possui outra característica que ajuda a explicar temperaturas tão elevadas. Por estar tão no interior do continente (observe que esse Estado fica no ‘coração do Brasil’), não recebe circulação de brisa marítima (que normalmente ajuda as temperaturas a ficarem mais amenas). Claro que certamente quem mora bem encostado aos importantes rios desse Estado ainda recebe um pouquinho de brisa fluvial, o que ajuda a amenizar a temperatura bem localmente.
Dessa maneira, temperaturas elevadas em Tocantins mesmo nessa época do ano (em que é inverno no Hemisfério Sul) são completamente normais. Isso de “inverno frio e verão quente” faz pouco sentido em localidades próximas á Linha do Equador, conforme comentamos anteriormente.
Leiam mais sobre o clima de Tocantins nesses textos:
Chuva de granizo e rajadas intensas em Belo Horizonte – MG
A tempestade de ontem a noite (06/08) na região de Belo Horizonte – MG foi tão intensa que foi registrado granizo em diversos pontos da cidade. No bairro Novo Glória, uma estrutura metálica de cerca de 700kg voou com a força do vento e felizmente ninguém ficou ferido. Casas foram destelhadas, árvores danificadas e vários pontos ainda estavam sem energia elétrica na manhã de hoje (07/08). O jogo de futebol entre o Atlético-MG e o Internacional chegou a ficar 22min interrompido em decorrência do tempo severo.
Ainda na manhã de 07/08, algumas ruas estavam interditadas devido aos estragos.
De acordo com a Defesa Civil de BH, choveu nas seguintes regiões: Barreiro (12mm), Centro-Sul (11,4mm), Leste (12,6mm), Noroeste (10,4mmm), Pampulha (20mm), Oeste (10,8mm), Norte (1,2mm). Não houve registro de chuva em Venda Nova. A média histórica para o mês é de 14,8mm. {x}
Observe que Agosto é um mês considerado seco (chove em média apenas 14,8mm, conforme indiquei no parágrafo acima). A cidade tem clima classificado como Aw (assim como a cidade de Palmas-TO, que destaquei acima). Nesse tipo de clima, a estação seca e a estação chuvosa são bem marcadas e são essas duas estações que melhor definem o clima da região. Reparem que nas localidades destacadas na reportagem choveu quase que toda a média para o mês de agosto em menos de 1h. Por isso, aproveito a notícia para falar sobre totais de precipitação.
Quando digo que choveu 10,8mm em uma determinada localidade, algumas coisas precisam ser consideradas. Esse total foi acumulado ao longo de quanto tempo? Se foi ao longo de 10min, por exemplo, tivemos uma chuva intensa. Se esse total é acumulado ao longo de um dia inteiro, aqueles dias em que fica chuviscando o dia todo mais ou menos na mesma intensidade, não teremos chuva intensa. Ou seja, é preciso saber em qual intervalo de tempo essa chuva ocorreu para classificarmos como uma chuva intensa ou não. No caso registrado em Belo Horizonte, evidentemente foi uma chuva intensa.
Saiba mais sobre a formação de granizo nesse post.
Meses secos em São Paulo-SP
São Paulo-SP e região já tem um outro tipo de clima na classificação Köppen-Geiger: é Cfa (subtropical úmido), que possui uma amplitude térmica anual maior do que a do clima Aw (o inverno possui temperaturas médias mais baixas quando comparamos com o Aw), porém possui uma estação seca igualmente bem marcada (assim como o Aw). De acordo com esse link da Estação Meteorológica do IAG-USP, onde são colocados dados médios a partir de observações meteorológicas, podemos notar que as chuvas em São Paulo-SP ficam mais concentradas entre os meses de setembro e março.
Ocorre que ao analisarmos o gráfico de precipitação total mensal dos últimos 12 meses em São Paulo-SP, vamos notar que os meses de dezembro/2017, janeiro/2018 e fevereiro/2018 tiveram precipitação abaixo da média (veja abaixo). Março/2018 teve uma precipitação considerável, acima da média. Já abril/2018, maio/2018, junho/2018 e julho/2018 ficaram abaixo da média.

Os meses de abril a julho já são meses esperadamente secos, no entanto a chuva ficou abaixo da média. Enquanto isso, o meses do último verão também não tiveram precipitação expressiva, conforme destacamos. E claro, isso vai implicar na disponibilidade de água nos reservatórios que abastecem a cidade de São Paulo. Em 05 de agosto de 2018, o G1 divulgou a importante informação de que o Sistema Cantareira (o que abastece um maior número de pessoas na cidade) estava há uma semana em estado de alerta (veja aqui):
O estado de alerta começou no domingo (29), após o reservatório chegar a 39,9% de sua capacidade. Na quinta (2) e sexta-feira (3), com a falta de chuvas, o nível chegou a 39,5%. {x}Na prática, o estado de alerta (igual ou abaixo de 40%,) reduz a quantidade de água que a Sabesp pode retirar do manancial de 31 mil litros por segundo para 27 mil litros por segundo. A determinação da agência de volume máximo de água a ser retirada deve ser cumprida sempre a partir do primeiro dia do mês seguinte {x}.
Sendo assim, é importante economizar água e eu tenho observado que essa importante informação tem sido pouco divulgada. E eu tenho certeza que isso tem a ver com as eleições. Não vou me estender em minha opinião, porque vocês sabem que esse assunto me chateia um pouco, devido ao tipo de leitor e comentarista que ele atrai.
Lembrando que é possível acompanhar o nível dos reservatórios paulistas nesse link da SABESP. E eu já falei sobre um possível racionamento de água em um post de alguns meses atrás, inclusive mostrando dados desse mesmo site.
Temperaturas elevadas e seca no interior da Região Nordeste
Uma forte massa de ar seco e quente tem predominado na região. Isso dificulta a formação de nuvens e as temperaturas máximas estão bastante elevadas. Conforme noticiado pela Climatempo:
O município de Gilbués no Piauí registrou temperatura acima de 40°C. Às 14h00 deste último domingo (05), horário de Brasília, os termômetros chegaram a 42,2°C, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologista (INMET). {x}
O Estado do Piauí (usando como exemplo pois foi mencionado anteriormente) possui duas tipologias climáticas, de acordo com a classificação de Köppen-Geiger. Ele é Aw (tipo já mencionado) na maior parte do território e Bsh (no sudeste desse Estado), que é o clima semiárido quente. O Bsh é caracterizado por ter um acumulado anual de precipitação modesto, que no caso dessa região do Piauí é de cerca de 600mm (para vocês terem uma ideia, na parte piauiense onde é Aw, o acumulado anual é de cerca de 1200mm).
Vários municípios do interior da Região Nordeste possuem clima Bsh e a seca predomina ao longo de vários meses do ano (seca de 8 meses por ano). É comum ficar bem mais de 1 mês sem chover nesses lugares (sem nenhuma gota mesmo, há lugares em que nem 0,1mm por mês é registrado, ou seja, nem um orvalhozinho). Claro que as consequências dessa seca poderiam ser contornadas e a qualidade de vida das pessoas que moram nessas regiões poderia ser melhorada se mais investimentos fossem feitos na região, ações que infelizmente nunca foram levadas a cabo com firmeza e dedicação por parte dos políticos.
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Dicas de livros: Atenção!
Vou falar de um livro em português que é super recomendado para quem está iniciando seus estudos em Meteorologia. Meteorologia: noções básicas conta com um time de autores excelentes (Rita Yuri Ynoue, Michelle S. Reboita, Tércio Ambrizzi, Gyrlene A. M. da Silva), todos professores de cursos de Meteorologia de diversas regiões do Brasil.
Hoje, o jornal em qualquer mídia apresenta e explica a dinâmica meteorológica. Embora façam parte de um sistema complexo, os fenômenos meteorológicos são apresentados nesta obra de forma simples e didática, desde os conceitos básicos de composição e estrutura da atmosfera até a previsão do tempo e do clima e as mudanças climáticas. {x}
Outro livro bem bacana é o Geografia Aplicada ao Turismo, livro escrito por vários autores com organização do Raphael de Carvalho Aranha e do Antônio José Teixeira Guerra.
A obra apresenta uma abordagem ampla e integradora das ciências sociais e ambientais, numa perspectiva interdisciplinar, evidenciando a aplicabilidade da climatologia, geologia, geomorfologia, biogeografia, cartografia, geopolítica e cultura no Turismo, auxiliando esses profissionais a planejarem suas atividades turísticas, em escalas locais e regionais.
Todos os autores do livro são especialistas nas suas áreas e já vêm trabalhando há bastante tempo nos temas que se propuseram a escrever. Os sete capítulos abordam questões cruciais para a boa formação de um profissional em Turismo e para aqueles formados em Geografia que também se interessam pelo tema.
A grande quantidade de fotos, ilustrações, tabelas e gráficos pode auxiliar os leitores a entender melhor essas questões. A bibliografia apresentada também possibilita aos leitores se aprofundar em algum tema abordado no livro. O livro Geografia aplicada ao turismo pretende atender tanto a alunos de graduação como de pós-graduação em Turismo, Geografia e áreas afins, bem como a outros profissionais e ao público em geral interessado nessa temática. {x}
Geografia Aplicada ao Turismo é um livro muito indicado para profissionais da área do Turismo e Geografia. Se você viaja bastante, também é super recomendado! Confira!
E preciso indicar também dois livros de Climatologia, matéria essencial nos cursos de Geografia e Meteorologia (embora com abordagens diferentes). Indico Climatologia Fácil, de Ercília Torres Steinke. De acordo com o texto de divulgação:
O que faz a asa-delta voar? O que é o fenômeno El Niño? Como são formados os desertos? Qual a diferença entre furacão e tornado? Perguntas cotidianas, feitas por alunos e reunidas pela autora durante seus mais de 15 anos de experiência no ensino de Climatologia, servem como ponto de partida para explicar conceitos e fenômenos climáticos de forma prática e original.
Ricamente ilustrada, a obra utiliza exemplos práticos para explicar os principais conceitos da Climatologia Geral, como movimentos de rotação e translação da Terra, radiação solar, umidade, precipitação e circulação atmosférica. Ao final do livro, a autora discute o aquecimento global e as polêmicas que o envolvem, levando o leitor a refletir sobre esse importante tema.Climatologia fácil é uma referência prática e descomplicada para alunos de graduação em Geografia e Meteorologia e professores de ensino fundamental e médio, assim como todos aqueles interessados em conhecer mais sobre os fenômenos climáticos a partir de exemplos do nosso dia a dia. {x}
O próximo livro de Climatologia é o Climatologia: noções básicas e climas do Brasil. Os autores são Francisco Mendonça e Inês Moresco Danni-Oliveira. De acordo com o texto de divulgação:
Climatologia: noções básicas e climas do Brasil é uma obra de referência que reúne conceitos básicos de climatologia e meteorologia, com destaque para os domínios climáticos e sistemas atmosféricos que regem tempo e climas do continente sul-americano e Brasil.
Ao longo de sete capítulos, o livro traz um panorama sobre o clima e define didaticamente as diferenças entre climatologia e meteorologia. Iniciando com o ambiente onde ocorrem os fenômenos, analisa as propriedades da camada atmosférica com 10km de altura em torno da Terra e sua circulação. Mostra a dinâmica determinada por massas e frentes de ar na América do Sul.
O livro resgata o papel histórico das classificações, discute os modelos de classificação climática da Terra e apresenta os grandes domínios climáticos. Analisando as variações de temperatura e pluviometria ao longo dos anos, nas diversas regiões do País, define e apresenta os tipos climáticos do Brasil.
O livro reserva um capítulo final para falar sobre efeito estufa, desertificação, El Niño e La Niña, associados às mudanças climáticas globais.
Francisco de Assis Mendonça é mestre em Geografia Física, doutor em Clima e Planejamento Urbano. Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pesquisador do CNPq, consultor da CAPES e FAPESC. É professor colaborador do mestrado em várias universidades do País. Atua nas áreas de climatologia, epistemologia da geografia, ambiente urbano e geografia da saúde.
Inês Moresco Danni-Oliveira é mestre e doutora em Geografia Física. Atualmente é professora adjunta da UFPR. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Climatologia Geográfica, atuando principalmente em clima urbano, poluição do ar e saúde, acidentes climáticos, impactos socioambientais e variabilidade climática. {x}
Vocês já sabem: todos os livros da Oficina de Textos comprados a partir dos links no Meteorópole vão me gerar uma pequena comissão. Enriqueça sua biblioteca e ajude a manter o blog!
Observações adicionais
Notem que todas as notícias que serviram como base para esse Giro Meteorológico pelo Brasil estão indicadas como links ao longo do texto. Nunca esqueço de um leitor sem noção que disse que eu não coloco referências. Achei isso tão injusto que nunca vou me esquecer! Sempre coloco referências, seja como links ao longo do texto ou ao final do texto (indicando os links e os nomes dos livros, quando for o caso).
Quem me conhece sabe que eu sou ferrenha defensora da internet-livro e uma das coisas que eu realmente acredito e considero ético é que devemos sempre colocar os links e todas as referências que nos permitiram escrever determinado post.
Todos os Giros Meteorológicos pelo Brasil serão arquivados nessa tag.
