Vamos definir direitinho o que é tromba d’água e o que é uma enchente relâmpago

Há alguns meses gravei uma edição do podcast Spin de Notícias falando sobre esse assunto (ouça aqui) e decidi transformar parte do meu roteiro em um post, assim mais pessoas terão acesso a esse conteúdo e eu consigo transcrever boa parte de minhas anotações para o computador. Também fica mais fácil se referir a outros posts e links sobre o assunto (embora os podcasters do Spin de Notícias e de outros podcasts semelhantes sempre coloquem as referências do episódio no post associado ao áudio).
Pois então, no começo do ano saiu essa reportagem na BBC Brasil falando sobre os perigos das “trombas d’água, o tsunami dos rios”. Eu fiquei bem preocupada com o uso errado do termo tromba d’água. Ok, não é exatamente errado já que se trata de uma designação regional, mas eu percebi que tromba d’água tem dois significados (o que pode gerar erros de interpretação) e eu vou falar sobre isso.
Antes também é preciso destacar o uso do termo “tsunami dos rios”. Tsunami é um fenômeno geológico, um maremoto, que é quando ocorre algum distúrbio no leito oceânico (um tremor de terra) e isso faz com que a água do mar se movimente formando ondas gigantescas. Eu não vou me aprofundar na definição de tsunami aqui e você pode ver um pouco mais no próprio verbete da Wikipedia. Como você pode notar, tsunami é um fenômeno estudado principalmente por geólogos: nada de acontecimentos na atmosfera terrestre, ou seja, não é competência dos meteorologistas.
Na reportagem da BBC, os repórteres usam o termo tromba d’água ou tsunami dos rios, mas na verdade se referem ao fenômeno cabeça d’água ou enchente relâmpago. Conversando com familiares e amigos de diversas regiões do Brasil, entendi que o termo tromba d’água é usado também como sinônimo de cabeça d’água ou enchente relâmpago. E eu falei sobre esse assunto nesse post. Portanto, daqui para frente eu vou falar desse fenômeno e depois eu explico a outra definição de tromba d’água e vocês vão ver que isso pode realmente gerar equívoco.
Quando chove na cabeceira de um rio, essa chuva evidentemente vai seguir rio abaixo. Agora imagine se essa chuva vier numa quantidade muito grande e em um curto período de tempo. Em situações assim, o volume de água ao longo do rio vai subir rapidamente. Em quem estiver no rio, mesmo que nas margens e em um local distante da cabeceira pode ser pego desprevenido, correndo o risco de ser arrastado pelas águas.
Não sei se vocês já assistiram o filme O Bom Dinossauro, da Disney. Pois bem, no filme o pai do Arlo morre em decorrência de uma enchente relâmpago. Uma baita tempestade está se formando e logo as águas do rio sobem rapidamente e o pai do protagonista é arrastado pelas águas. Desculpem pelo spoiler, mas eu acredito que esse é um bom exemplo do fenômeno em uma obra de ficção.
Muitas vezes a pessoa nem nota que está chovendo na cabeceira simplesmente porque não tem o costume de olhar para o céu, não conhece o regime de chuvas da região ou o local onde ela está no rio não possibilita uma boa visão da cabeceira.
Eu não gosto do termo tromba d’água para designar esse fenômeno porque este também é o nome dado aos tornados que se formam a partir de células de tempestade localizadas sobre superfícies d’água. A proposito, recentemente vi uma imagem muito bem definida deste fenômeno (veja aqui) e discuti essa questão da nomenclatura nessa thread do Twitter. E para saber mais sobre tromba d’água dentro dessa definição de tornado que acontece sobre a água, veja esse post.
Percebam portanto que o termo tromba d’água pode gerar confusão pois pode ser usado para designar dois fenômenos bem distintos. Sendo assim, para essa enchente que acontece em um rio em decorrência de uma grande quantidade de precipitação em um curto período de tempo na cabeceira desse rio, prefiro usar o termo enchente relâmpago ou cabeça d’água. Ainda acho o termo enchente relâmpago mais adequado e facilita na busca por referências em inglês: o termo em inglês é flash flood e o termo enchente relâmpago tem sido utilizado em muitos materiais, em português, sobre o tema.
Por todo o Brasil, banhar-se em rios é uma atividade de lazer bastante comum. Quem mora em São Paulo-SP talvez possa achar isso estranho, porque nossos rios são poluídos e muitos paulistanos costumam mais ir nas represas ou na praia. Mas quando você viaja pelo interior do Estado e pelo interior do país de modo geral, nota que há paisagens maravilhosas com rios, cachoeiras, lindas nascentes, etc.
A presença de rochas, redemoinhos, a dificuldade de se estimar a profundidade em alguns pontos do rio e a presença de lodo em seu fundo são exemplos de fatores que tornam rios traiçoeiros, principalmente para quem não conhece aquele curso d’água específico, já que cada rio é diferente. Bom, some esses fatores que já tornam rios traiçoeiros à probabilidade de acontecer uma cabeça d’água, principalmente durante a estação chuvosa.
Ao meu ver o ideal é sempre conversar com quem conhece aquele rio: moradores da região, guias turísticos, guardas, etc. Essas pessoas vão saber dizer se o fenômeno costuma acontecer naquele rio e quais os pontos são mais perigosos. Ficar de olho no nível do rio (usando uma rocha do rio como referência, por exemplo) e observar a correnteza, observando se as folhas e galhos estão descendo a correnteza em maior quantidade e velocidade também são maneiras de ficar atento aos perigos.
A conscientização sobre os perigoso que podem ser encontrados nos rios é muito importante e ao meu ver trabalhos educativos precisam ser feitos em comunidades e parques estaduais. Há quem defenda que os gestores de parques naturais e donos de cachoeiras localizadas em áreas privadas façam um trabalho de conscientização com os frequentadores dos locais, o que eu concordo. Não adianta simplesmente visitar esses locais sem entender a importância da preservação da natureza e a importância do respeito pela natureza, já que os fenômenos naturais são implacáveis e muitas vezes rápidos demais, não permitindo nem tempo de evacuar a área.
Bibliografia e links relevantes (além dos indicados ao longo do texto)
- Episódio do Spin de Notícias que gravei sobre o tema;
- Reportagem da BBC que me inspirou a falar sobre o assunto
Radar Meteorópole
Em meu post anterior, o Vinícius sugeriu que eu usasse o termo Radar Meteorópole para me referir a essa parte do post onde indico links que não necessariamente tenham a ver com o post, mas que eu julgue interessantes. Os links na verdade nem precisam ter necessariamente a ver com Meteorologia, são apenas coisas que eu acho legal.
Adorei a sugestão do Vinícius e decidi utilizar!
Então vamos à lista:
- Façam perguntas para mim no Curious Cat (vou dar respostas rápidas e se for sobre Meteorologia, pode ser que eu responda com links, dependendo do caso).
- Aqui eu contei como “descobri” a Meteorologia
- O blog Outra Cozinha é todo lindo (já falei sobre ele). Se você quiser saber mais sobre PANC’s (plantas alimentícias não convencionais) e se quiser aceitar o convite de descobrir as plantas típicas de região, olhar mais a natureza e repensar sua relação com o ambiente, visite o site. Estou encantada nessa receita de canja de missô com cará-moela, vou fazer agora que ficou friozinho. A Carla também tem uma loja criativa associada ao blog com opções lindas de presentes.
- Se você está em São Paulo-SP ou cidades próximas e tem interesse por confeitaria, confira os cursos do Samuel Alves. Ele é chef confeiteiro e faz coisas lindas, que também mostra no Instagram. Tem cursos de flores de açúcar, macaron, bem casado, etc. Confiram!
- Site do INPE com notícias e materiais sobre Mudanças Climáticas. Ou seja, é uma fonte oficial de um instituto de pesquisa brasileiro, com notícias e informações curadas e selecionadas por especialistas da área. Em outras palavras, boa informação.
- Dica pra quem gosta de LEGO ou tem filhos que gostam. Sabe aqueles kits de caixa amarela que eles ganham? Então, fãs de LEGO criam modelos alternativos aos das revistinhas que vem com a caixa e postam no Rebrickable. Basta digitar o código do modelo da sua caixa (número que vem na caixa, normalmente abaixo do logo da marca) na busca do site que você encontra várias ideias. Recomendo.
Fonte das imagens da montagem que abre o post: Stock Unlimited
Livro recomendado
Vou falar de um livro em português que é super recomendado para quem está iniciando seus estudos em Meteorologia. Meteorologia: noções básicas conta com um time de autores excelentes (Rita Yuri Ynoue, Michelle S. Reboita, Tércio Ambrizzi, Gyrlene A. M. da Silva), todos professores de cursos de Meteorologia de diversas regiões do Brasil.
Hoje, o jornal em qualquer mídia apresenta e explica a dinâmica meteorológica. Embora façam parte de um sistema complexo, os fenômenos meteorológicos são apresentados nesta obra de forma simples e didática, desde os conceitos básicos de composição e estrutura da atmosfera até a previsão do tempo e do clima e as mudanças climáticas. {x}
Vale muito a pena comprá-lo! Na obra, há material introdutório sobre ciclones tropicais. Um excelente ponto de partida, sem dúvidas. Comprando o livro a partir do meu link, você ajuda na manutenção do Meteorópole, já que eu recebo uma pequena comissão. É uma maneira de ajudar o blog, pois como disse aqui, é através das propagandas que o site se mantém.
Eu recomendo esse livro com bastante frequência porque ele realmente é muito bom. Eu o recebi na versão digital e na versão física e em várias ocasiões ele me serviu como consulta rápida para elaborar um texto aqui para o blog ou para tirar alguma dúvida sobre meu trabalho. Recomendo sempre. E se preferir, pode comprá-lo na Amazon também pois também recebo comissão.
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