Temporada de furacões de 2018 – os destaques da primeira quinzena de setembro: Furacão Florence e Tufão Mangkhut

Demorei um pouco para falar do furacão Florence e do tufão Mangkhut e assim dar continuidade a nossa série sobre a temporada de furacões 2018 porque eu ocupei boa parte de minha semana passada em um treinamento sobre sensores meteorológicos automáticos. Eu inclusive pretendo escrever um post a respeito desse treinamento, contando um pouquinho sobre as coisas que aprendi.
Mas chegou a hora: vamos falar sobre os ciclones tropicais primeira quinzena de setembro de 2018, com especial destaque para o furacão Florence e do tufão Mangkhut. Como fiz no episódio anterior da série, vou separar o post de acordo com as áreas de formação de furacões (ou bacias de formações de ciclones). Vou falar sobre as áreas I e II (indicadas na Figura 1 abaixo), sobre a área III e sobre a área IV de formações de ciclones (também indicadas na Figura 1 abaixo). Vou acabar focando mais nas área I e II, pois há dados mais organizados sobre essas áreas, onde o NHC faz um tradicional e excelente trabalho de monitoramento.

Eu me adaptei bem com essa maneira de falar sobre os ciclones tropicais (lembrem-se: furacões e tufões são o mesmo tipo de fenômeno, todos chamados de ciclones tropicais) porque acredito que assim fica bastante claro a respeito de qual região estamos falando.
Antes de começar, quero mostrar essa imagem incrível:
The tropics right now h/t Owen Shieh pic.twitter.com/wbz7MQGqDl
— Marshall Shepherd (@DrShepherd2013) September 11, 2018
Observem que essa imagem, no tweet do meteorologista Marshall Shepherd, é referente a todo o planeta e mostra todas os ciclones tropicais, tempestades tropicais e áreas de possível desenvolvimento desses fenômenos no dia 10 de setembro de 2018. A primeira quinzena de setembro é historicamente (ou climatologicamente) a mais ativa, por isso é muito possível que esse post seja o mais longo da série até agora.
Área I: Golfo do México + Atlântico
Para o Golfo do México + Atlântico, os nomes para o Atlântico para a temporada de 2018 são:
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Como nos outros posts da série, na cor rosa indicada na tabela acima podemos ver os furacões e tempestades tropicais do período do post (que no caso é a primeira quinzena de setembro). Quem me acompanha no Twitter percebeu que os meteorologistas estão falando do furacão Florence desde o finalzinho de agosto (por volta do dia 30), quando os meteorologistas começaram a observar uma depressão tropical na costa da África. Lá pelo dia 6 de setembro, o alerta começou a ficar mais sério, com os meteorologistas já avisando as áreas que poderiam ser afetadas.
A previsão do tempo permite que possamos traçar o deslocamento de um furacão e verificar a evolução de sua intensidade com muita precisão em até cerca de 7-10 dias antes do furacão fazer o seu landfall, que é quando ele atinge o continente. Esse prazo é determinante para que as autoridades alertem a população e tracem planos de evacuação de áreas perigosas. E claro, como toda previsão do tempo, ela vai melhorando com a proximidade da data de interesse, na medida que novos dados meteorológicos são conhecidos.
Vou voltar a falar de Florence daqui a pouco, porém reparem esse tweet de 12 de setembro de 2018, onde são destacados 4 tempestades com nomes atuando no Atlântico: Florence, Isaac, Helene e Joyce. Desses 4 (que são os nomes destacados em rosa na tabela anterior), apenas Joyce é uma tempestade tropical: os demais atingiram o status de furacão.
4 named storms now in the Atlantic – last happened in 2008. If our western Gulf disturbance gets named, it would be the first time on record we’ve had 5 simultaneous storms. #Florence #Isaac #Helene #Joyce #95L pic.twitter.com/FgMJOvdvxS
— Tyler Eliasen FOX 13 (@FOX13Tyler) September 12, 2018
Nesses primeiros 15 dias de setembro tivemos 5 tempestades atuantes: Florence (furacão), Gordon (tempestade tropical), Helene (furacão), Isaac (furacão) e Joyce (tempestade tropical). Vou destacar Florence em primeiro lugar, por ter sido o mais destrutivo.
O Furacão Florence no momento (escrevo essa parte do texto na manhã do dia 14 de setembro) é um furacão de categoria 1 e atingiu a Carolina do Norte, Estado na costa leste norte-americana, indicado na Figura 2 a seguir:


Florence originou-se a partir de uma onda tropical bastante intensa que surgiu na costa oeste da África em 30 de agosto. Bastante organizada, essa onda tropical (também chamada de onda de leste) deu origem a uma depressão tropical já no dia 31 de agosto, quando ainda estava na costa de Cabo Verde. Essa depressão tropical prosseguiu seu deslocamento em uma trajetória Oeste-Noroeste e no dia 1 de setembro atingiu o estágio de tempestade tropical. Intensificou-se rapidamente nos dias seguintes, e por volta do dia 4-5 de setembro já era considerado um furacão de categoria de 4 a 5.
- Falei sobre Escala Saffir-Simpson nesse post;
- Para saber mais sobre os estágios de desenvolvimento de um furacão, consulte esse post.
4,000 miles.
16 days.Florence’s incredible journey from Africa to North America. (https://t.co/PVJEzdVNdg) pic.twitter.com/GyditETvuL
— Dakota Smith (@weatherdak) September 14, 2018
Por volta do dia 07 de setembro, Florence enfraqueceu e voltou a ser uma tempestade tropical, porém ganhou força por volta do dia 9, quanto retomou o status de furacão. No dia 10 voltou a ser um furacão de categoria 4, com ventos máximos de cerca de 220km/h. Ainda entre o dia 10 e o dia 11 de setembro, Florence voltou a enfraquecer um pouco e depois passou por um ciclo de reposição das paredes de nuvens de seu olho (leia mais sobre esse assunto nesse post). Quando um ciclone tropical passa por esse processo, ele normalmente volta a se intensificar.
Por volta do dia 13, Florence ficou mais fraco e tornou-se um furacão de categoria 2, pois transitou por regiões com forte cisalhamento de vento que fizeram com que sua estrutura se enfraquecesse e no dia 13, tornou-se um furacão de Categoria 1. No dia 14, Florence atingiu a região de Wrightsville Beach, na Carolina do Norte. No tweet a seguir, imagens incríveis do momento da aproximação de Florence na costa:
Cameras outside the space station captured views of #HurricaneFlorence2018 on Sept. 14 at 7:41 a.m. EDT, minutes after the storm made landfall near Wrightsville Beach, North Carolina, packing winds of 90 miles an hour. pic.twitter.com/y34ctsSeCF
— NASA Goddard Images (@NASAGoddardPix) September 14, 2018
Per @NHC_Atlantic, #Hurricane #Florence made landfall near Wrightsville Beach, North Carolina at 7:15 AM EDT (1115 UTC) with estimated maximum winds of 90 mph (150 km/h), and a minimum central pressure estimate of 958 mb (28.29″). (@NOAA GOES-East imagery) pic.twitter.com/2ONwfAmhmt
— NASA SPoRT (@NASA_SPoRT) September 14, 2018
Observem que mesmo tendo chegado à costa como um furacão Categoria 1, Florence trouxe muitos problemas. A maior parte da destruição causada pelo furacão Florence é relacionada ao fenômeno de storm surge ou maré de tempestade. A maré de tempestade é causada como uma combinação de vários fatores:
- Efeito da baixa pressão atmosférica durante a tempestade;
- Efeito direto do vento, que pode ajudar a ‘empilhar’ a água do mar na costa;
- Efeito da rotação da Terra;
- Efeito das ondas na costa.
- Efeito do grande acumulado de chuva ao longo de poucas horas ou poucos dias, dificultando o escoamento de água.
Não vou entrar em detalhes sobre toda a mecânica desse fenômeno, porque esse post já vai ficar muito grande. Mas uma maré de tempestade causa grandes enchentes e o furacão Florence causou grandes enchentes por boa parte da região costeira da Carolina do Norte e como exemplo disso temos essa rápida filmagem abaixo:
We continue to get intense footage of storm surge induced destruction in North Carolina. pic.twitter.com/xszPdRqcN0
— WeatherNation (@WeatherNation) September 14, 2018
Para alertar a população das regiões afetadas a respeito da chegada do furacão Florence na costa da Carolina do Norte, um dia antes de Florence atingir a costa a previsão do tempo destacada a seguir foi veiculada:
Scary as fuck weather report. First it’s like, ah smart use of green screen, then it’s like holy fucking shit. pic.twitter.com/J9SmZqTqVI
— Nooruddean (@BeardedGenius) September 13, 2018
Trata-se de uma previsão do tempo muito completa, concisa e didática, com recursos de vídeo ótimos. E ela mostra incrivelmente toda a área de enchente do furacão (incluindo área dos rios). Impactante, certamente fez as pessoas entenderem o perigo. Essa previsão do tempo viralizou, vi vários colegas meteorologistas comentando a respeito da genialidade desse trabalho.
Apesar de a Carolina do Norte ter sido a área mais afetada, Florence afetou também a Virgínia, a Flórida e a Carolina do Sul. Infelizmente até o momento (dia 18/09/2018, quando escrevo esse post) são 33 as vítimas fatais relacionadas ao furacão Florence, de maneira direta ou indireta.
E claro, infelizmente circularam várias fake news. Uma delas, um tanto bizarra mas que pode ter apavorado muita gente, fala de um tubarão nadando em uma via expressa na Carolina do Norte, sugerindo que o animal pudesse ter sido “arrastado” do oceano para o continente durante a maré de tempestade. Claro, é fake!
Another false image of a shark swimming around a highway in North Carolina is being circulated. #fake pic.twitter.com/rcS7hYl3uY
— Michael Ventrice (@MJVentrice) September 14, 2018
É muito provável que o nome Florence seja aposentado e não seja mais usado em listas futuras para nomes de furacões. Já escrevi diversos posts sobre nomes de furacões e o mais recente é esse, para caso você ainda não saiba como os nomes dos furacões são escolhidos.
Com relação ao Furacão Isaac, ele foi muito pequeno e não afetou nenhuma área habitada. Foi furacão por um breve período de tempo: apenas durante o dia 10 de Setembro (atingiu apenas Categoria 1). Em seguida, ele enfraqueceu e tornou-se uma tempestade tropical. Não causou muitos danos e felizmente, nenhuma morte.
O Furacão Helene também não afetou seriamente nenhuma área habitada. No entanto, ele foi curioso, digamos assim. Apesar de ser um furacão que atingiu apenas Categoria 2, o que destaco no Furacão Helene foi sua trajetória incomum:

Observem na figura acima que a trajetória de Helene num primeiro momento ameaçou as ilhas do Cabo Verde, depois já como tempestade tropical causou algum transtorno para os Açores e então foi em direção às ilhas britânicas já como ciclone extratropical. Os impactos, no entanto, foram mínimos.
Normalmente os furacões se formam na costa da África e com a rotação da Terra, deslocam-se em direção ao Golfo do México (onde encontram águas quentes e pouco cisalhamento do vento, situações ideais para se desenvolverem). O que provavelmente fez Helene ter essa trajetória incomum foi o Efeito Fujiwhara, que ocorre quando uma tempestade tropical menor “orbita” uma tempestade tropical maior. No caso, foi a tempestade tropical Joyce que fez esse duo com o Furacão Helene e isso pode ter alterado uma possível trajetória mais usual que Helene poderia ter apresentado.
Bom, como vocês podem notar eu fiquei muito tempo falando da Área I, porque tivemos muitas informações sobre o Florence e até o momento o furacão Florence é o mais intenso e destrutivo da temporada, considerando somente a Área I. Vamos agora falar das demais bacias de formações de ciclones e se eu encontrar mais alguma coisa interessante sobre Florence, falarei a respeito em outros posts ou mencionarei em meu perfil do Twitter (@samanthaweather).
Área II: Pacífico Oriental (costa pacífica dos EUA, México e outros países da América Central e Canadá)
Os nomes para o Pacífico Oriental para a temporada de 2018 são:
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Como podem observar, as coisas no Pacífico Oriental ficaram menos movimentadas quando comparamos com a Área I para o mesmo período (primeira quinzena de setembro de 2018). Aqui o maior destaque é sem dúvida o Furacão Olivia, que se formou em 01 de setembro e ainda está em atividade (como perturbação tropical).

O Furacão Olivia começou a se formar na costa pacífica (costa oeste) do México por volta do dia 30 de Agosto e ganhou o status de furacão por volta do dia 5 de setembro, atingindo categoria 4 por volta do dia 6 de setembro. Desloucou-se em direção ao Hawaii, atingindo o noroeste de Maui e lanai no dia 12 de Setembro e logo tornou-se uma tempestade tropical. Foi então se enfraquecendo até chegar ao ponto de no momento ser considerado apenas uma depressão tropical.
Olivia ganhou destaque por ter sido o primeiro ciclone tropical a atingir as ilhas de Maui e Lanai, de acordo com os registros históricos. A região se preparou bem para a chegada do Furacão Olivia e a maior consequência do fenômeno foram chuvas acumuladas em quase 400mm ao longo de 48h (entre os dias 11 e 13 de setembro) em alguns pontos do Hawaii. Felizmente não foram registradas fatalidades.
De acordo com os dados divulgados no site do NHC, há no momento 2 áreas com possibilidade de formação de ciclones tropicais. Uma delas, localizada a sul da Península da California, tem no momento entre 40%-60% de chances de desenvolvimento de furacões (Figura 6):

O Furacão Olivia foi mais um fenômeno que se deslocou da Área II em direção a Área III (veja Figura 1). A seguir, vamos falar da Área III.
Área IV: Pacífico Ocidental
Como eu mencionei nesse post, a questão dos nomes no Pacífico Ocidental é um pouco complicada. Embora a maior parte dos países membros do ESCAP/WMO Typhoon Comittee concorde com o que chamam de uma lista internacional de nomes, as Filipinas acabam tendo sua própria lista de nomes. Para não deixar o post confuso, vou falar apenas da lista internacional de nomes (elaborada pelo ESCAP/WMO Typhoon Comittee) para a temporada de tufões de 2018:
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O nome tufão é empregado nessa região (entre 180°E e 100°E). Como sempre reforço, é uma questão de nomenclatura local. Tufões e furacões são o mesmo fenômeno e o nome técnico em ciclone tropical.
O sistema em destaque no período da primeira quinzena de setembro de 2018 (e até agora, no dia 18 de setembro) foi o tufão Mangkhut (conhecido como Ompong nas Filipinas). O tufão Mangkhut atingiu categoria 5 na escala Saffir-Simpson e a comunidade meteorológica mundial ficou de olho nele:
Scary #Himawari-8 loop showing powerful Super Typhoon #Mangkhut approaching #Luzon in the #Philippines pic.twitter.com/49iGFKBC05
— Dan Lindsey (@DanLindsey77) September 14, 2018
Um tufão muito grande e com ventos muito intensos, que foi responsável por ao menos 79 fatalidades, principalmente nas Filipinas (74 mortos), mas também na China (4 mortos) e em Taiwan (1 morto), de acordo com informações até o dia 18 de setembro. Foi um dos tufões mais intensos a atingir as Filipinas desde Haiyan em 2013. Considerando toda a temporada de ciclones tropicais de 2018, Mangkhut é o ciclone tropical mais intenso até o momento.
- Leia sobre o Tufão Haiyan (2013) nesse post.
Por volta do dia 5 de setembro de 2018, o Joint Typhoon Warning Center (JTWC) comecou a monitorar uma perturbação tropical que se formou bem próxima da Linha Internacional da Data. Essa perturbação tropical foi se desenvolvendo ao longo dos dias e a Japan Meteorological Agency (JMA) a classificou como depressão tropical no dia 7 de setembro, logo tornando-se tempestade tropical e ganhando o próximo nome da lista, que no caso era Mangkhut. Entre os dias 8 e 9 de setembro, Mangkhut atingiu uma área onde o oceano tinha temperaturas mais elevadas e isso fez com que ele se intensificasse rapidamente, sendo classificado como tufão por volta do dia 9 de setembro. Um olho bem característico de ciclone tropical foi observado no momento em que o fenômeno se aproximava das Ilhas Marianas e de Guam. O fenômeno foi substancialmente se fortalecendo a partir desse momento, atingindo Categoria 5 por volta do dia 11 de Setembro. O tufão então atingiu a província de Cagayan, nas Filipinas, no dia 14 de setembro com categoria 5. Os ventos e as enchentes intensas relacionadas com Mangkhut foram os principais responsáveis pelas mortes registradas. Infelizmente as Filipinas não possuem um plano de evacuação e de resiliência tão bem traçados como os EUA. As Filipinas são um país muito carente de recursos e infra-estrutura, portanto os impactos são ainda maiores. E claro, é preciso observar que trata-se de um tufão categoria 5, o que torna o desafio de minimização de danos ainda maior.
Nota final
Os tweets que mencionei ao longo do texto foram compartilhados por mim em minha conta no Twitter. Para acompanhar meus comentários e compartilhamentos de informações sobre ciclones tropicais em tempo real, sigam-me: @samanthaweather. Falo também sobre outros assuntos relacionados com Meteorologia, Divulgação Científica, Educação e Arte.
E eu falo coisas sobre meu cotidiano e sobre meu trabalho no Instagram também: @samanthaweather.

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Leia mais + bibliografia usada ao longo do texto
- Site do NHC/NOAA
- Site do Central Pacific Hurricane Center – PRH/NOAA
- Temporada de furacões de 2018 no Pacífico
- Temporada de furacões de 2018 no Atlântico
- Temporada de tufões de 2018
- Furacão Florence
- Confira todos os posts do Meteorópole sobre a temporada de furacões de 2018
- Storm Surge
- Tufão Mangkhut
